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O cliente que faltou e a sorte que apareceu

Sou personal trainer. Trabalho na casa das pessoas, atendendo de segunda a sábado. Minha rotina é uma correria sem fim: acordo às 6h, primeiro cliente às 7h, último às 20h. Parece glamouroso? Não é. É carregar halteres, ouvir desculpa de aluno preguiçoso, tomar sol na cabeça e ainda ter que ficar motivando gente que não quer estar ali.

Na quarta-feira passada, algo diferente aconteceu. Um dos meus clientes mais antigos, o Seu Alberto, deu um vexame. Ele ia treinar às 14h, como sempre. Cheguei na casa dele com meus equipamentos, bati o portão. Ninguém. Liguei. Nada. Mandei mensagem. Resposta quinze minutos depois: "Filho, desculpa. Passei mal de noite, não vou conseguir hoje."

Normal. Acontece.

O problema é que a agenda depois das 14h estava vazia. A cliente das 16h tinha viajado. O das 18h havia remarcado. De repente, me vi com uma tarde livre no meio da semana. A primeira em meses. Voltei para casa sem saber o que fazer. Olhava para o teto, para a geladeira, para o celular.

Não queria dormir. Não queria ver TV.

Sabe aquela sensação de tempo vazio que aperta, que parece errado? Pois é.

Me sentei no sofá, ainda com a roupa de treino suada. Peguei o celular só para matar o tempo. Entrei num grupo de WhatsApp de profissionais de educação física – aquele grupo que todo mundo só manda meme e vídeo de gif errado. Alguém tinha postado um link. "Ganhei um dinheiro extra nisso aqui." A mensagem era de um colega que eu respeito, cara sério, pai de família.

Pensei: "Se ele tá falando, não deve ser golpe."

Cliquei.

A página abriu. Nada de luzes piscando ou mulher sem roupa. Era uma plataforma de jogos direta, explicativa. Li os termos, olhei os depósitos mínimos. Coloquei cinquenta reais. Só cinquenta. O suficiente para perder sem me odiar depois.

Comecei a jogar sem grandes expectativas. Apertei aqui, apertei ali. As primeiras rodadas foram mornas. Ganhava um trocado, perdia em seguida. Nada que fizesse meu coração acelerar. Mas tinha uma coisa: o site funcionava redondo. Sem travamento, sem aquela enrolação de ficar carregando. Eu estava usando um acesso alternativo Vavada que o meu colega tinha mandado no grupo, e honestamente, parecia melhor do que muito site de banco por aí.

Isso me deixou tranquilo. Continuei jogando com calma, quase como um passatempo. Cada rodada durava segundos. Perdi uns vinte reais. Recuperei quinze. Perdi mais dez. O saldo estava em trinta e cinco.

Já eram quase 16h. O sol batia na janela da sala. Eu nem tinha trocado a camiseta suada. Continuei.

Aumentei o valor da aposta para oito reais. Perdi. Aumentei para dez. Perdi de novo. Meu saldo despencou para doze reais. Menos de um terço do que eu tinha colocado. Pensei em parar. Já era quase um hábito meu perder dinheiro em qualquer tentativa nova.

Mas aí veio aquela sensação. Não era esperança. Era raiva. Raiva de ter perdido o cliente, raiva da tarde vazia, raiva de estar suado no sofá. Apertei o botão com força, como se o celular tivesse culpa.

Apostei os doze reais restantes.

A tela congelou por um segundo. Meu coração deu um pulo. Será que travou?

Não.

Os números começaram a subir. Devagar no começo. R
12
,
R
12,R 18, R
35.
A
ı
ˊ
a
c
e
l
e
r
o
u
.
R
35.A
ı
ˊ
acelerou.R 70, R
150
,
R
150,R 280, R$ 450.

Parei de respirar.

Quando o saldo parou de subir, marcava R$ 760,00. Setecentos e sessenta reais. Eu nunca tinha ganho tanto assim em nada. Nem num bingo de igreja.

Larguei o celular no sofá como se fosse uma cobra. Levantei. Andei até a cozinha. Bebi um copo de água inteiro de uma só vez. Voltei. O saldo ainda estava lá. Não era sonho.

Respirei fundo. Fui direto na área de saque. Pedi R$ 730,00. Deixei trinta lá – número do meu primeiro aluno que acreditou em mim quando ninguém acreditava. O dinheiro caiu na minha conta em quatro minutos. O aplicativo do banco apitou e eu salivei na hora.

Sabe o que fiz com o dinheiro? Paguei uma conta de luz que estava vencida há duas semanas. Comprei um par de tênis novo para treinar – o meu antigo já estava com o solado liso, escorregava no chão de madeira dos clientes. E o resto? Levei minha mãe para jantar num lugar que ela sempre pediu para ir, um restaurante de comida nordestina com forró ao vivo. Ela dançou, eu dancei mal, e a gente riu.

Quando voltei para casa naquela noite, ainda estava tentando entender. Não sou jogador. Não aposto em nada. Nem na Mega-Sena eu jogo. Mas naquela quarta-feira, com a agenda vazia e o tempo sobrando, resolvi dar uma chance. Usei um acesso alternativo Vavada que veio num grupo de WhatsApp, no meio de tanto meme e bobagem. E funcionou.

Hoje continuo sendo personal trainer. Acordo cedo, carrego halteres, aturo aluno reclamão. Mas toda vez que um cliente falta, eu não fico mais irritado. Fico curioso. O tempo vazio pode ser só tempo vazio. Ou pode ser uma porta.

Naquela quarta, foi uma porta. E do outro lado, tinha setecentos e sessenta reais esperando por mim.